
Uma sugestão muito comum que vemos por aí quando se quer aumentar a quantidade de leitura é: leia sempre que possível. Sobrou 15 minutinhos entre um compromisso e outro? Pegue o livro para ler nesse intervalo.
Por mais que eu ache que essa ideia é boa, também acho que ela nem sempre funciona e, por isso, hoje quero explorar essas duas variáveis: tempo e qualidade de leitura.
Primeiro gostaria de explicar o que entendo por essas duas várias:
- Tempo de leitura: quantidade de tempo de uma única sessão de leitura, ou seja, quanto tempo você permanece lendo um livro antes de uma pausa.
- Qualidade de leitura: aqui é mais subjetivo, é a sensação de estar aproveitando a leitura, sabe?! De se lembrar dos personagens, da história, de sentir que consegue acompanhar o que está acontecendo na narrativa.
Na minha experiência, tempo e qualidade formam uma curva em u, isto é, a qualidade da leitura vai aumentando conforme eu passo mais tempo em uma única sessão de leitura, até que, se eu passo tanto tempo que estou “maratonando” o livro, percebo que a qualidade cai.
Várias vezes já me arrependi de ter maratonado uma leitura, porque por mais que o livro estivesse ótimo, eu terminava sentindo que tinha lido rápido demais, que não aproveitara os detalhes da história e com uma visão mais geral dos acontecimentos. Ao contrário, quando demoro a ler um livro, tenho a sensação de que vou me aprofundando devagar na história, tenho momento para respirar e lembrar dos acontecimentos nos momentos de pausa e sinto que isso ajuda a consolidar o livro do momento e transformá-lo em parte do meu dia a dia. É como uma amizade, que vai sendo construída aos poucos.
Ao mesmo tempo, quando estou tão curiosa que acabo pegando o livro para ler absolutamente qualquer intervalo (quanto espero a comida ficar pronta, durante o lanche, naqueles minutinhos logo antes de sair de casa para o trabalho) tenho a sensação de que não consigo entrar na história, sabe?! Há um período de adaptação cognitiva entre a tarefa que estávamos fazendo antes e a atual e sinto que quando finalmente mergulho no livro já está no momento de parar de ler. Isso provoca a sensação de fragmentação da leitura e às vezes eu nem entendo mesmo o que li. Sobretudo quando o livro é denso.
Ou seja, eu percebo que o que funciona para mim são sessões relativamente longas, entre 45 minutos e 1 hora e meia. Menos do que isso e a leitura fica muito fragmentada, mais do que isso e fica maçante.
Claro que também varia conforme o livro. Alguns pedem mesmo um ritmo mais rápido e podem até ser completados em um dia, como foi a minha experiência com Casas estranhas, Vergonha ou Caçador sem coração, que li entre um e dois dias. Contos também pedem uma imersão maior. Outros livros pedem lentidão e espaçamento, seja porque o livro te coloca em outro ritmo, como A loja de cartas de Seul, seja porque o livro é denso e precisa de espaços para reflexão, como Hyperion.
Moral da história: não tem receita de bolo, né?!
Penso que a leitura é um hobby que demanda muita sensibilidade e autoconhecimento, e infelizmente dicas rápidas de redes sociais falham em ambos os aspectos. É muito tentador cair no fator quantitativo de, se quiser ler 3 livros por mês, considerando que a média de páginas de um livro é 300, basta ler 30 páginas por dia. Mas será que é isso que a sua experiência de leitura pede? Ou é isso que o livro pede?
Uma coisa prática que faço para contornar a problemática da individualidade de cada leitura, e que pode funcionar para você também, é ler vários livros ao mesmo tempo, de preferência com ritmos e graus de complexidade diferentes. Assim, tenho aquele livro para ler nos 15 minutinhos que sobram, aquele para ler com calma em sessões mais longas, e aquele que levo no dia a dia.
Também procuro moldar meu dia para facilitar essas sessões ideias para mim: chego mais cedo no trabalho para ler com calma durante 45 minutos antes do expediente, janto mais cedo para ler antes de dormir sem estar morrendo de sono. Às vezes leio assim que acordo.
E, por fim, sempre tem aquele livro que nos leva a quebrar as regras, né?! Tem momentos que o livro está tão interessante que leio, sim, em qualquer segundo disponível possível e depois fico chorando por ter terminado rápido. Para isso, sempre tem a escrita de resenha, a possibilidade de folhear as páginas e a releitura. Faz parte da vida de leitor.
Como tem sido a sua vida literária? Você tem algum ritmo que funciona para você?
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