
Neste ano, e provavelmente em todos os próximos, você verá um post no blog com metas literárias anuais.
Quando comecei a me organizar pra valer, lá em 2017, eu criava metas porque era isso que todas as pessoas faziam e que diziam que “funcionava”. Com o tempo, fui gostando cada vez mais de me planejar e também explorando e complexificando sistemas de planejamento. Mas percebi que nem sempre isso resultava em mais conquistas. Ao contrário, a criação de metas muito rígidas, sobretudo numéricas, fazia com que me sentisse presa ao planejamento e tivesse dificuldade em atingir aquilo a que tinha me proposto.
Nesses últimos anos, mudei muito como me organizo e até abandonei o digital e retornei para o papel. Com isso, refleti constantemente sobre o papel das metas na minha vida e o que poderia fazer para manter o planejamento que tanto gosto, mas de forma mais leve, evitando os problemas anteriores.
Minha visão sobre metas
Os gurus da produtividade dizem que temos que criar metas SMART, o que basicamente significa que elas devem ser específicas e mensuráveis, possíveis de serem atingidas, relevantes para nós e com prazo de conclusão definido.
Isso nunca funcionou para mim.
A vida sempre atropelou o meu planejamento, de forma positiva e negativa, e, no final, eu raramente conseguia atingir as metas. Mas, apesar da frustração da incompletude, percebi que mesmo sem bater a meta, eu conquistava coisas que eram importantes para mim e avançava no planejamento.
Por isso, comecei a abordar a criação de metas como o estabelecimento de intenções para o ano, ou para um determinado período, ou data.
Os números raramente estão presentes, e, quando estão, eles não são um parâmetro de avaliação, apenas uma consequência, como quando criamos uma lista dos livros que queremos ler no ano. Isso automaticamente gera um número, mas não me sinto pressionada a atingi-lo. Trata-se de uma intenção, não de uma obrigação.
E é a partir dessa minha mudança de perspectiva, que para minha saúde mental foi excepcionalmente benéfica, que quero conversar com você hoje sobre a nossa relação com metas de leitura.
Alguns problemas decorrentes da tradicional criação de metas literárias
O equivalente do método SMART em termos de metas literárias seria algo como: ler vinte livros em 2026, previamente selecionados de uma TBR infinita.
O problema é que, quando falamos de leitura, essa lógica é falha, pois foi pensada para tarefas, mas a leitura é uma experiência.
Para mim, há três grandes aspectos que a mecânica das metas não abarca:
- Cada leitura nos modifica e pode nos levar a querer ler outros livros similares.
- Ao longo do ano podem aparecer outros livros que nos interessam mais do que aqueles planejados inicialmente.
- Não sabemos realmente quanto tempo cada leitura vai exigir de nós.
Ou seja, criar metas ignora a serendipidade da vida e a natureza da experiência leitora.
Claro que podemos tentar contornar isso abrindo espaço no planejamento para bons encontros literários e desvios de curso. Uma estratégia comum é deixar espaços abertos, definindo, por exemplo, dez livros fixos e outros dez livres para escolhas ao longo do ano.
Mas isso não resolve o problema completamente e, em desvios muito grandes, ainda fica aquele sentimento negativo de não ter conseguido seguir o planejamento.
Foi assim com as minhas metas para o Halloween de 2025. Eu li dois dos vários livros da lista (Ascensão e O irresistível desejo de amar quem tanto odeio), abandonei um (Carrossel assombrado), e li um que não estava na lista, Hyperion, que acabou sendo uma das melhores leituras de 2025.
O problema? Hyperion demorou mais de um mês para ser concluído e ocupou um tríplex na minha cabeça durante todo esse tempo! Valeu muito a pena, mas alguns livros que comprei para o mês foram adiados e até agora não os conclui, porque durante o período de fim de ano eu não estava mais no clima de ler coisas de terror. Agora só Deus sabe quando eles serão concluídos, o que deixou aquele gostinho agridoce do planejamento.
Então, como lidar com esse paradoxo?
Como lidar com o paradoxo envolvido na criação de metas literárias
Para mim, a resposta não é acabar com as metas literárias. Planejar é muito gostoso e tem o seu papel ritualístico importante. Então, com base no meu próprio método de organização, pensei em algumas maneiras de manter o ritual das metas, mas sem as levar tão a sério a ponto de sentir culpa por não conseguir cumpri-las.
1. Ter um propósito (ou alguns) para o ano literário
O planejamento é um meio, e não um fim em si. O mesmo vale para as metas.
Ler vinte livros em um ano pode ser uma meta bem formulada, mas ela é vazia se não estiver a serviço de algo maior como um propósito. E o mais bacana é que o propósito é um movimento contínuo, então não tem aquela pressão para “atingi-lo”, como ocorre com as metas. Na verdade, a gente nem precisa delas.
Por exemplo, se meu propósito é crescer e me desenvolver como pessoa, posso até estabelecer como meta ler cinco clássicos no ano. Mas se eu ler apenas um, porém que me fez refletir, conhecer outra cultura, outra época, o propósito já terá sido contemplado. O mesmo vale se, em vez de clássicos, eu acabar lendo um livro contemporâneo que me atravessou de forma significativa.
Uma variação do propósito de leitura pode ser um projeto literário, como ler a obra completa de um autor, explorar uma determinada nacionalidade ou período histórico. O ideal é que esses projetos não fiquem tão atrelados ao tempo, mas à qualidade das leituras. Assim, dá para ficar satisfeito mesmo lendo pouco, já que se está avançando em uma direção específica.
2. Focar em registrar em vez de planejar excessivamente
Enquanto o planejamento se baseia na idealização, e muitas vezes superestimamos o que conseguimos fazer, o registro marca aquilo que realmente foi feito.
Desde que mudei o foco do meu sistema de organização e passei a registrar mais, planejando apenas o mínimo (principalmente o que envolve prazos), me tornei muito mais feliz e satisfeita com a minha produtividade.
Você pode estar se perguntando o que seria, exatamente, registrar. Mas não é nada complicado, ou pode ser complexo apenas na medida em que você deseja que seja. Vamos aos exemplos:
Número anual de livros lidos
Normalmente as pessoas estabelecem arbitrariamente um número de leituras que desejam completar no ano. Na lógica do registro, o ideal seria marcar as leituras conforme elas acontecem. Na minha agenda, tenho uma página simples, totalmente em branco, na qual vou adicionando as obras lidas e as datas de conclusão. É bem satisfatório ver a lista crescendo ao longo do ano, mas não sinto uma pressão para preencher a página até o final. Além disso, facilita a recuperação do histórico de leituras de cada ano!
Número diário de páginas lidas
Outra métrica comum é estabelecer um número fixo de páginas por dia. Por mais que isso seja uma excelente forma de se organizar, sobretudo se você lê mais de um livro ao mesmo tempo, pode ser que você seja como eu e tenha um ritmo diário de leitura bem inconstante. Nesse caso, o registro pode funcionar de duas formas:
- Em vez de ter uma meta diária, apenas anote a quantidade de páginas que leu no dia. Eu gosto de usar o aplicativo Maratona para isso, mas você pode usar o aplicativo que quiser, o Skoob também é bem popular, ou até mesmo um diário de leitura.
- Pode ser que apenas registrar a quantidade de páginas não seja o suficiente, ou que mesmo registrando você sinta insatisfação por achar que está lendo menos do que deveria. Nesse caso, acho que ter um diário de leitura e anotar pequenos pensamentos (ou até reflexões elaboradas) pode ajudar bastante, pois, mesmo lendo pouco, a sensação de estar extraindo mais daquela leitura é recompensadora. Ao olhar para o caderno cheio de anotações no fim do ano, aposto que você não vai se importar com a quantidade de livros presentes nele, pois você passou o ano construindo pensamento próprio em cima das leituras, o que também vai ajudar a diminuir a comparação com o ritmo de leitura de outras pessoas.
Essas são duas práticas que vêm funcionando para mim há alguns anos e que podem funcionar para você também.
O mais importante: o prazer de ler
O mundo literário é recheado de metas: mensais, anuais, pilhas de livros que vemos as outras pessoas lendo. Por isso, mesmo com todas essas práticas, eu gostaria de me lembrar, e te lembrar também, que metas não importam tanto quanto parecem. Somos nós que as criamos e, por isso mesmo, podemos mudá-las.
Se suas metas estão difíceis, se a sua vida mudou e o que antes era simples agora não é, o caminho é: adeque o seu planejamento de leitura a você. Não permita que a comparação com outras pessoas ou que as mudanças da vida roubem o prazer das suas leituras.
Planeje, sim. Escreva as suas intenções literárias para este ano ou este período.
Mas depois, deixe ir e foque no que realmente importa: ler, ler com qualidade, ler com prazer.
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