
Olá, pessoal!
Este é o primeiro post oficial para assinantes. Se você me lê de um futuro distante, onde vários outros posts já saíram, saiba que tudo começou aqui.
E não poderia ser diferente, já que quero pensar algo que envolve o cerne da assinatura e o meu objetivo aqui. Ele é muito nítido para mim, mas ao mesmo tempo difícil de executar e de colocar em palavras, então acho que o post acabou ficando menos estruturado do que eu gostaria, mas acho que passa a mensagem daquilo que estou buscando todos os dias aqui (e daquilo ao qual estou me opondo também!).
Hoje eu gostaria de trazer para vocês e, talvez, até para pensarmos juntos, algumas reflexões e incômodos que sinto ao pensar partes do espaço universitário hoje, assim como livros e debates mais acadêmicos em relação a nossa vida cotidiana.
Para aqueles mais recentes por aqui, durante muitos anos eu estive inserida na pesquisa acadêmica. Fiz iniciação científica durante boa parte da graduação em psicologia, depois fui para o mestrado na área e, mais recentemente, participei da monitoria na graduação em letras e tive que escrever e apresentar um trabalho na área.
Hoje eu me considero meio apartada do campo de pesquisa acadêmica. Na verdade, a criação dos projetos do blog foi uma tentativa de continuar a pesquisar, mas de uma forma diferente, fruto justamente dos incômodos que eu vinha sentido ao permanecer nesses espaços universitários.
Para além do imperativo de publicação e dos prazos nem sempre tão manejáveis, presenciei muitas violências linguísticas dentro dos espaços acadêmicos. Imposições de certo modo de falar e de escrever, restrição de palavras por serem muito coloquiais e padronização do estilo próprio de cada um.
Somado a isso, também presenciei a glorificação de autores que escreviam de forma bastante inacessível e obscura (eles podem, nós não), com textos que precisam ser decifrados mas ninguém exatamente tem a chave para a decifração.
Aqui não quero fazer uma crítica exatamente a esses autores, ou ao modo como cada um escreve. Trabalhar com esses textos difíceis foi importante para mim, me ajudou a desenvolver o pensamento crítico, a capacidade de abstração, e depois de ler Lacan eu acho que consigo pegar qualquer texto para ler sem ter o menor medo (Hegel talvez nem tanto haha).
Mas eu sentia um grande distanciamento entre as coisas lidas e pensadas na academia e a vida real.
Foi um incômodo que tive ao longo do mestrado também, o de sentir que a pesquisa que eu estava fazendo, por mais que tenha sido superinteressante para mim (e, pelo que meus colegas falaram, para eles também), não tinha uma conexão prática (nem muito reflexiva) com a vida.
Depois, comecei a frequentar alguns espaços mistos, como clubes de leitura, que tinham pessoas mais e menos “acadêmicas”, seja nas palavras escolhidas, na opção por citar ou não autores e conceitos ou por simplesmente compartilhar impressões pessoais sobre as leituras.
E uma coisa que percebi e que me gerou incômodo foi: vi o academicismo ser usado como “carteirada” nesses espaços, pessoas usando a teoria para ou justificar leituras bem divergentes e distantes das sensações provocadas por passagens nos livros, “passando pano” em determinadas questões, ou para o oposto, impossibilitar determinadas leituras feitas pelas pessoas com base no que elas acharam, porque o cânone diz x, y e z.
Isso, a princípio, não é ruim. Mas o que observei é que o uso desse academicismo nesses espaços encerra conversas em vez de abrir diálogo. Algo como “contra a teoria não há argumentos não teóricos”.
Além, claro, de ter consciência de que o conhecimento produzido na academia raramente fura a bolha.
E tudo isso tem me incomodado muito. Sobretudo a percepção de que o cotidiano e o acadêmico não conversam. Parece que são idiomas completamente diferentes e alienígenas um do outro.
Mas será que precisa ser assim?
Acho que é nesse ponto que estou, o do questionamento e da busca por outros caminhos.
O blog é uma tentativa de unir ambos os mundos. Eu amo pesquisar, escrever, criar teorias, ir para o campo da abstração. Mas acho que isso não vale de nada se esse conhecimento produzido não pode ser compartilhado, ser usado por outros para pensar suas questões, seus interesses. Se eu mesma não consigo fazer a conexão entre o pensamento, a pesquisa, e aquilo que estou vivenciando no momento.
Curiosidade em off: eu sempre usei as resenhas e os trabalhos acadêmicos para tratar questões pessoais que estava passando no momento. E esses sempre foram os trabalhos que mais gostei de escrever.
O último da vez foi a escrita do trabalho sobre o livro A mulher de trinta anos, de Balzac. Fiz trinta anos, estava bem reflexiva com esse novo marco na minha vida, decidi levar isso para a academia e pensar sobre isso com a literatura e alguns autores.
(Obs.: se não é produtividade usar os problemas para escrever trabalhos e os trabalhos para resolvê-los, então eu não sei o que é hahaha.)
Acho que isso diz muito sobre o que quero fazer aqui e sobre o que penso que o conhecimento acadêmico e nossa relação com ele deveria ser.
É um espaço que eu gostaria de criar aqui e esse desejo tem produzido muitas dificuldades de escrita, já que eu sou bem acadêmica e tenho a mentalidade de uma pessoa que passou mais de dez anos de sua vida em espaços universitários e em diálogos universitários.
Agora tudo isso me cansa muito e quero mais liberdade e diálogo. Apesar de julgar aquilo que produzo com as lentes bastante rigorosas da academia.
Como manter o rigor, a seriedade de reflexão, a curiosidade de pesquisa e a sensibilidade da singularidade das impressões de cada um?
Enfim, eu não tenho a resposta. Cada post que escrevo é uma tentativa de encontrar uma resposta para isso, na prática.
Sinto que sigo falhando, mas espero a cada dia conseguir criar um espaço de inspiração e diálogo para vocês que me leem, que vocês se sintam acolhidos com a minha escrita e que consigam entrar e participar das discussões, nem que seja apenas para levar algo para a vida de vocês.
O que vocês pensam sobre tudo isso? Como é a relação de vocês com o conhecimento produzido na universidade? Já sentiram algum incômodo como os que mencionei aqui? Adoraria saber a opinião de vocês sobre o assunto!
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