Pareamento de Leituras

Livros O vermelho e o negro e biografia de Napoleão Bonaparte

Olá, pessoal!

Hoje gostaria que compartilhar com vocês um método – o Pareamento de Leituras – que tem me ajudado demais na minha prática de leitura e que desenvolvi por acaso, mas busquei sistematizar, pois acho que pode ajudar outras pessoas também a ler mais mantendo a qualidade das leituras.

Espero que ele possa ajudá-los também!

O que é o Pareamento de Leituras

O Pareamento envolve combinar temáticas de leitura de modo que os livros se complementes e envolve, também, a criação de uma conexão entre as leituras, mesmo que elas não sejam feitas ao mesmo tempo.

O objetivo principal do método é ganhar cada vez mais familiaridade com determinada temática e criar o próprio percurso dentro do assunto, movido principalmente pelos interesses pessoais de cada um. Ou seja, é totalmente personalizado!

Por isso, parear leituras não é simplesmente buscar leituras de apoio para uma leitura principal, ou listas prontas na internet para se aprofundar em um gênero, autor o tema.

Você cria a sua própria lista durante as leituras. Isso é superimportante! É uma lista em constante criação que não pode simplesmente ser feita antes do projeto, pois os seus interesses com certeza vão mudar ao longo das leituras.

Outro objetivo do método é tornar o percurso de leitura e estudo literário mais leve.

Querer se aprofundar em uma temática dentro da literatura pode ser excessivo. São muitos gêneros, autores, obras e livros novos sendo publicados a todo o momento. Mas se você escolhe um ponto de partida ao qual quer se dedicar, e vai elencando pequenos alicerces, uns mais simples, outros mais complexos, você consegue criar uma base com menos esforço e mantendo o prazer das leituras, mesmo destrinchando temas, conceitos e cenas.

Como tudo começou – E um exemplo prático do método

Estava eu um dia lendo A mulher de trinta anos, de Honoré de Balzac. No início da leitura não fazia ideia de que esse livro mudaria minha vida em múltiplos sentidos.

Pois bem, apareceu a necessidade de publicar um trabalho e decidi escrever sobre um capítulo do livro em questão, o que me causou um grande problema, porque eu não o havia terminado e meu entretenimento acabou se tornando trabalho.

Daí, lendo algumas indicações, vi uma menção à obra O vermelho e o negro, do Stendhal, que originou o movimento realista no qual Balzac se inseria. Bem, pensei, pode ser uma boa ler esse livro como atividade de lazer, assim me mantenho na temática do estudo mesmo quando não estou formalmente pesquisando.

E foi a melhor decisão que tomei na minha vida de leitora!!!

Primeiro porque o livro é muito bom e eu me apaixonei pela literatura francesa realista do século XIX. Segundo que comecei a perceber um certo “espírito do tempo” que atravessava ambos os livros. Há semelhanças nos cenários, nos costumes dos personagens, nos acontecimentos e tudo isso contribuiu para eu criar um metaconhecimento sobre a contextualização das obras.

O contraste também foi essencial: temos uma mulher como protagonista de uma obra e um homem da outra. As possibilidades e aventuras de cada um são muito distintas, contribuindo para levantar algumas discussões sobre a diferença de papéis desempenhados por homens e mulheres no século XIX, que é, de certa forma, o pano de fundo das obras, sobretudo daquela de Balzac.

Como “temperinho” final (e também porque tenho uma capacidade limitada de ler muitos livros ao mesmo tempo), peguei uma biografia de Napoleão Bonaparte, pois ele é citado em ambos os livros e pareceu ser uma figura fundamental para a compreensão do contexto da época.

Foi uma experiência muito legal, rica e imersiva, mas sem ser maçante, por isso quis compartilhar aqui. É incrível como a combinação de leituras ajuda a criar conexões e aprofundar o entendimento sem esforço. Às vezes informações que eu precisaria pesquisar e que inicialmente não entendi em uma leitura são esclarecidas em outra pouco tempo depois. E como estou lendo “juntas”, a conexão é natural e sem esforço.

Gostei tanto da experiência, que vou procurar reproduzi-la nas próximas leituras, inclusive contemporâneas. E, claro, compartilhar tudo aqui.

Como parear leituras

O método é bem intuitivo e a ideia é que ele não seja muito rígido, a fim de ser adaptado aos interesses singulares de cada um. Mas procurei sistematizar alguns pontos gerais que guiam a seleção e o modo de leitura das obras.

Encontre um assunto que te interesse

Acho que o primeiro passo é começar com uma leitura e ver o que te interessa. Pode ser que seja um tema, ou um período histórico, ou uma figura específica que aparece. E, a partir daí você pode:

  • Buscar referências nos próprios livros: por exemplo, eu estava lendo a biografia do Napoleão Bonaparte da L&PM Pocket e em uma epígrafe outro livro do Stendhal foi mencionado, A cartuxa de parma, que será a minha próxima leitura.
  • Procurar materiais de apoio e ver que obras eles indicam: eu estava lendo o livro capítulo 18 do livro Mimesis, que fala sobre o realismo francês e vi que ele enfatizou muito o livro Madame Bovary, de Flaubert, então é mais um livro que foi adicionado à minha lista de leituras.
  • Pesquisar quais foram as inspirações dos autores: ainda na temática do realismo francês e seus desdobramentos, durante as minhas investigações descobri que O primo Basílio foi inspirado em Madame Bovary, então esse foi outro livro adicionado à minha lista de leituras dentro dessa subcategoria.

Decidir os livros principais e os secundários

Para o pareamento ser efetivo, o ideal é que você escolha um livro no qual quer se aprofundar e faça outras leituras mais livres e leves, que podem ser tanto de textos literários quanto teóricos. Não se preocupe de não gravar todas as informações ou de “perder” algo. Confie que você vai se lembrar do que é importante, sobretudo porque estará constantemente conectando as leituras entre si, o que contribui para que as ideias se fixem na memória.

Como decidir

Olha, aqui é difícil apesar de simples: intuição.

Existirão livros que você simplesmente vai sentir muita vontade de comentar, ou que despertarão diversas reflexões. E não dá para saber de antemão que livro irá produzir isso, é preciso ler!

Então não tente forçar. Enquanto não encontrar seu livro principal, considere as leituras que está fazendo como secundárias, que estão te dando o contexto e te preparando para mergulhar no livro que alugar um triplex na sua cabeça.

Um exemplo prático para ilustrar o processo

Recentemente voltei a me interessar por histórias envolvendo bruxas e/ou um cenário mais sombrio e gótico. Mas não quis complicar muito, até porque estava precisando de um descanso da leitura de todos esses clássicos que mencionei. Então escolhi algumas romantasias para começar: li Caçador sem coração, que tem como protagonista uma bruxa em um contexto no qual bruxas são perseguidas e assassinadas, e também Belladonna, uma romantasia gótica que envolve magia e a temática da morte.

Surpreendentemente, lendo A abadia de Northanger, da Jane Austen, uma das personagens faz uma lista de romances clássicos góticos que ela quer ler com a amiga (!!!), sério, poderia ter sido mais fortuito para mim?! Claro que marquei o nome de todas as obras e depois vou selecionar a que mais me interessa para começar a ler. As bruxas também terão sua vez, e depois de assistir algumas resenhas e vídeos de lançamento, minha lista de leitura ficou rechonchuda.

Por enquanto, não senti vontade de marcar em detalhes nenhum desses livros, mas sinto que já estou construindo meu percurso de leitura dentro dessas temáticas. E, como pode ver, uma coisa vai levando a outra e coincidências muito suspeitas e interessantes começam a acontecer.

Esse processo de seguir a curiosidade e ir descobrindo coisas, fazendo conexões é uma das coisas que mais amo e mais me empolgam na atividade de pesquisa!

Possíveis problemas e como lidar com eles

Nem tudo são flores, né pessoal.

Métodos são incríveis, mas também podem nos aprisionar e precisamos tomar cuidado para evitar que ele deixe de ser uma ferramenta útil e se torne o objetivo das leituras ou um peso que nos afasta do hábito de ler.

A seguir listo alguns dos possíveis problemas que podem surgir, mas se vocês tiverem alguma dúvida ou enfrentarem desafios que não estão listados, sintam-se à vontade para comentar ou me escrever, que também irei atualizando os tópicos aqui no post!

Sobrecarga de leituras/Lista infinita de leituras

Pode acontecer de você começar a se interessar por muitas das referências que vão surgindo ao longo das suas leituras e acabar com uma lista interminável de obras para ler. Isso pode ou não ser um problema. Mas se te causar ansiedade, recomendo que você mude a perspectiva com que encara a lista.

Pense mais em uma reunião daquilo que te chamou a atenção ou te interessou em vez de uma lista de livros que você deve ler. Você não precisa ler tudo, de forma alguma. Leia aquilo que quiser na hora que quiser.

Dificuldade de encontrar ou manter uma temática

Pode ser também que aconteça o contrário e, em vez de você se interessar por tudo, você não se interesse por nada o suficiente para iniciar um percurso no assunto.

Ou pode ser que você comece a se interessar, mas veja que não era aquilo que estava pensando, ou perca o interesse após alguns aprofundamentos.

E tá tudo bem!

O Pareamento de Leituras não é um método para produzir interesse (acho que isso nem é possível!), mas para sistematizar o desdobramento desse interesse.

O método pode parecer muito atrativo, mas simplesmente não funcionar para você, pois pode ser que você goste de variar as leituras sempre. Isso não é um problema. Se você não estiver se fixando em nada, não insista apenas porque parece legal ter um percurso de leituras em um assunto.

Aqui o prazer e a curiosidade da leitura vêm sempre em primeiro lugar!

Medo de ficar monotemático ou maçante

E, claro, você não precisa abandonar os seus interesses secundários ao privilegiar o aprofundamento em uma temática.

Variar as leituras é importante para evitar que sua rotina literária fique monotemática ou maçante. Além disso, há benefícios secundários em “fugir do tema” como:

  1. Encontrar conexões inesperadas;
  2. Aumento da vontade de retornar ao projeto, com a mente desanuviada. Eu, pelo menos, adoro cultivar aquele desejo de voltar a ler determinada temática, sabe?! Acho que as pausas ajudam a manter o interesse a longo prazo.

A famosa “piriguetagem literária” não significa que você está abandonando seus projetos. Pausas são necessárias para relaxar e aproveitar tudo o que o universo literário tem a nos oferecer.

Para fechar (e um convite)

Enfim, o Pareamento de Leituras tem sido uma forma de transformar a curiosidade em percurso, sem perder o prazer de ler.

Se você quiser testar, comece pequeno: escolha uma leitura “principal” e deixe que as referências e conexões te indiquem uma ou duas leituras de apoio, sem pressão de criar uma lista perfeita.

Se você já faz algo parecido (mesmo que sem nome), me conta nos comentários: você costuma seguir referências, temas, autores, períodos, ou “climas” de leitura? Vou adorar ler os percursos de vocês!


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