Marginália: A Cidade do Sol – Tommaso Campanella

Marginália do livro A Cidade do Sol - Tommaso Campanella

O que os teóricos falam sobre A Cidade do Sol

No livro A verdadeira história da ficção científica temos duas interpretações divergentes sobre a obra de Campanella.

O autor, Adam Roberts (2018, p. 88), sustenta que o mote central da obra consiste em uma metáfora que representaria o sujeito burguês emergente centrado em seu ego-razão e em harmonia consigo mesmo. Isso seria indicado pelo próprio título, cujo termo traduzido como “sol” também poderia significar que a cidade seria Solus, do eu.

Já Mark Riley, também citado no livro de Roberts, comenta que a sociedade ideal concebida por Campanella seria um modelo de Estado totalitário, combinando astrologia, tecnologia e futurologia (Riley, 2015, p. 188 apud Roberts, 2018, p. 88).

Unindo as interpretações dos dois teóricos por meio da reflexão sobre a contemporaneidade

Confesso que tendo a concordar mais com o posicionamento de Mark Riley. Como já mencionei, achei a leitura da rotina “perfeita” e completamente controlada dos habitantes da Cidade do Sol um tanto angustiante.

Ao mesmo tempo, a centralidade do saber, bem como o papel dos sábios em ditar o que os habitantes deveriam fazer, comer etc., me lembrou muito nossa sociedade atual voltada para a otimização e regida por especialistas que nos dizem o jeito ótimo de viver.

Nossa sociedade hoje

Talvez isso seja mais observável no campo da saúde, onde temos diversos profissionais, como nutricionistas e personais, que dão o cardápio e a série perfeitos para obtermos os maiores ganhos em nossas atividades, além dos suplementos ingeridos para otimizar ainda mais aquilo que seria muito difícil obter com a alimentação “natural”.

No campo do trabalho e da organização pessoal também há um movimento muito grande em torno do sistema perfeito de organização, da automação de tarefas (sobretudo agora com a IA) e dos melhores aplicativos e métodos de gestão/controle de tempo.

E, claro, raramente essas conclusões sobre a melhor forma de se viver vêm da nossa própria cabeça. Elas vêm de especialistas, no melhor dos casos, ou dos cada vez mais comuns influencers que parecem ter os resultados almejados, portanto, um atestado de que o “método” deles funciona.

Como consequência, de uns anos para cá, tivemos uma enxurrada de produtos digitais voltados a nos ensinar métodos para tudo e absolutamente qualquer coisa. São cursos e mais cursos oferecendo a solução milagrosa para o problema que eles mesmos nos levaram a identificar. E, assim, achamos que não estamos vivendo nossa vida da melhor e mais produtiva forma e pagamos para alguém nos ensinar.

A introjeção do agente regulador

Ao mesmo tempo em que buscamos as respostas externamente, o autor sul-coreano Byung-Chul Han nos ensinou que a autoridade reguladora dos nossos atos não se encontra mais no meio externo. Não vivemos mais uma sociedade da vigilância disciplinar externa, como Campanella retrata em seu livro, em que a sociedade dita o que deve ser feito e pune aquele que destoa. Ao contrário, vivemos em uma sociedade cada vez menos regulada. No entanto, isso não significa que sejamos livres.

Segundo Han, em A sociedade do cansaço (2015), nós introjetamos esse agente regulador dos nossos atos e somos todos muito livres para julgarmos e controlarmos a nós mesmos. Nesse sentido, por mais que os especialistas ditem o que devemos fazer, eles não se responsabilizam pelos resultados, já que cabe, sobretudo, à pessoa que comprou o curso ou contratou o serviço seguir o processo à risca, se autorresponsabilizar em fazer dar certo e se automotivar.

A conexão com e entre os autores

Por isso, pensando sobre o posicionamento de ambos os autores, comecei a me questionar se não poderíamos pensar no sujeito burguês que, ao se tornar servo da razão e do ego, se autoimpôs um governo totalitário, buscando incessantemente a forma mais correta de agir.

Não seria a nossa sociedade o ápice desse movimento, cujo germe podemos observar nessa obra italiana de 1602 e nas reações que ela desperta nos teóricos?


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