Resenha: A Cidade do Sol – Tommaso Campanella

Capa do livro A Cidade do Sol - Tommaso Campanella

A Cidade do Sol foi escrita pelo italiano Tommaso de Campanella em 1602. Obra semelhante a Utopia, de Thomas Morus, e A república, de Platão, representa a visão do que seria uma cidade ideal para o autor, que a escreveu durante a prisão em Nápoles por acusação de heresia. O livro pode ser considerado um precursor do gênero de ficção científica, o que motivou a minha leitura!

Abaixo, faço um parecer rápido sobre a obra para quem quer saber se vale a pena lê-la, mas não gosta de muitos detalhes. Em seguida, comento em maior profundidade e sem spoiler alguns pontos do texto. Para quem já leu o livro e quer se aprofundar, recomendo o post de marginália.

Parecer rápido:

A Cidade do Sol me surpreendeu (e assustou mais do que inspirou). Devo confessar que concluí a leitura feliz por ser apenas uma “utopia” rs. A multiplicidade de elementos culturais misturados no funcionamento da cidade é fascinante, mas o que fica é o estranhamento: numa sociedade inteiramente determinada pelo saber de especialistas em prol do bem comum, há pouco espaço para qualquer coisa fora do sistema. O livro suscita questionamentos sobre o que significa ordenação, saber, liberdade e bem-estar social.

Sinopse

Esta obra constrói, através de um diálogo entre interlocutores, a imagem de como seria a cidade ideal na visão do autor. Nesta cidade quem manda é um chefe espiritual e temporal chamado Sol assistido por três príncipes: Poder, Sabedoria e Amor. O autor tece seus comentários sobre a cidadania, leis, saúde, governo, guerras, educação, política, família, hábitos alimentares, arte de navegar, modos de vida e sobre o dia a dia nesta cidade ideal que se situa no inconsciente de nossa civilização.


Motivação da leitura

Esta leitura faz parte do projeto (Re)descobrindo meu gosto literário – Episódio 1: Ficção Científica.

Conheci a obra ao encontrá-la mencionada no livro A verdadeira história da ficção científica, de Adam Roberts, meu principal guia para o projeto de leitura e pesquisa. Roberts destaca alguns precursores do gênero, como A república (Platão), História verdadeira (Luciano de Samosata), As viagens de Gulliver (Jonathan Swift), Micrômegas (Voltaire), e, entre nomes conhecidos e desconhecidos, lá estava A Cidade do Sol.

Fiquei muito intrigada com todas essas obras, pois nunca imaginei que as mais conhecidas pudessem ser consideradas ficção científica e que o gênero datava de tão antigamente. Claro que fiquei ansiosa para desbravar uma dessas leituras, e o destino me agraciou com o livro de Campanella por apenas dez reais em um evento literário na minha cidade!

Sinal de que estou no caminho certo de investigação, não?!

Quando o ideal é assustador

Acho que não era o objetivo da obra, mas foi esse o efeito que causou em mim.

A Cidade do Sol é uma cidade na qual cada coisa tem o seu lugar e todas são governadas pelo saber. Há uma hierarquia segundo a qual pessoas mais sábias, especialistas em alguma área, indicam às demais o que devem fazer e qual é o melhor momento para fazê-lo. Quando esse momento não é respeitado, há a punição. Quando é, surge a harmonia, como se todos os habitantes da cidade fossem peças ou engrenagens de um grande sistema.

Nesse sistema, o ócio é condenado e parece que todos precisam estar fazendo algo engrandecedor. Na verdade, toda a rotina das pessoas é controlada segundo a noção do momento correto para cada coisa, e a sensação que tive foi a de não haver espaço para a livre iniciativa.

Fiquei bem angustiada lendo a descrição da rotina dos habitantes, sempre levados de um lado para o outro conforme ditam os especialistas. A todo momento me questionei se essa forma de vida seria mesmo ideal e que ser humano conseguiria viver assim.

Algumas inovações e o lugar da mulher

Nem tudo é ruim e há algumas inovações interessantes, como a partilha de tudo e, portanto, a exclusão da pobreza e da riqueza. No entanto, vemos que as mulheres ainda são tratadas de forma objetificada, entrando na partilha e tornando-se “comuns”. Essa ideia poderia ser inovadora, no sentido de indicar que elas poderiam participar, tal qual os homens, da vida comum, mas também implica na partilha sexual das mulheres, aproximando-as a outros bens que podem ser partilhados. Além disso, cabe à mulher a função de gerar outros seres humanos.

Uma cidade ideal em que vigora a punição e a guerra

Acho que o que mais estranhei foi a perpetuação da punição e da guerra. Na visão ideal de Campanella, uma cidade ideal não é aquela em que essas coisas não existem, mas que as canaliza de forma a propiciar a virtude e a harmonia.

No caso da guerra, por exemplo, ela é usada para resolver problemas internos da sociedade, pois a guerra nunca é interna, mas sempre com um outro de fora da cidade. Dessa forma, chama a atenção o fato de que eles só conseguem ser a sociedade “perfeita” porque têm um outro com quem guerrear e cujo modo de vida podem problematizar.

Astrologia e religião

Um elemento bem curioso ao longo do livro é a coexistência de elementos diversos, incluindo o papel da astrologia, usada pelos sábios para identificarem os momentos mais propícios para uma série de atividades e direcionarem a vida dos cidadãos.

Além disso, há um aspecto central para a ficção científica, que eu descobri durante a leitura do livro de Adam Roberts, que é a religião, e que acaba aparecendo no livro, de forma surpreendente. Não vou desenvolver aqui, a fim de não dar spoilers, mas fica a sensação de que, no fundo, essa questão é central, mesmo com sua breve aparição.

Vale a pena ler?

Pode ser que você esteja se perguntando se vale a pena ler uma obra tão antiga, que vagueia entre filosofia e literatura. “E se for muito distante? De difícil aproximação?”

A favor, temos que a obra é curtinha, tem menos de sessenta páginas, e escrita em formato de diálogo, apesar de a maior parte das falas ser descritiva.

De fato, o funcionamento da cidade é muito diferente, mas penso que isso contribui para refletirmos com mais facilidade sobre a nossa sociedade, tendo um contraponto tão distinto.

Vale, sim, a leitura, nem que seja para concluirmos a obra pensando “Que bom que não vivemos essa ‘perfeição’ toda” rs. E, encontrando dificuldades, não deixe de retornar ao blog e conferir a seção para aprofundamentos, que propõe algumas expansões da leitura.

Para se aprofundar

Se a ideia de uma sociedade em perfeito funcionamento te causou algum assombro, ou se você quer saber mais sobre essa obra pouco conhecida de Tommaso Campanella e descobrir como alguns teóricos a interpretam, recomendo conferir a marginália que escrevi sobre o livro: [link].

Nesse texto, apresento duas leituras divergentes sobre A Cidade do Sol e proponho uma aproximação entre elas a partir de uma reflexão sobre a nossa contemporaneidade, dialogando com as análises de Byung-Chul Han.


Ficha técnica do livro

A Cidade do Sol - Tommaso Campanella

Título: A Cidade do Sol

Autor: Tommaso Campanella

Tradutor: Carlo Alberto Dastoli

Editora: Vozes

Ano: 1602

N.º de páginas: 57

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Capa do livro "A máquina do tempo", do autor H. G. Wells

Durante a leitura de A Cidade do Sol, estranhei muito os cidadãos da cidade e os imaginei como o povo Elói, da obra A máquina do tempo, de H.G. Wells. Acho que ambos os livros podem nos fazer pensar que “evolução” e “avanço” nem sempre são positivos. Por vezes, podem ser assustadores e indesejáveis.


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